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O HOMEM E O RIO por Alufa-Licuta Oxoronga

R$12,00 R$9,00

Características

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Número de páginas: 78

Edição: 1(2017)

ISBN: 978-1979179928

Formato: A5 148×210
Digital Em PDF

Descrição

Apresentação

Na arrumação de meus papéis (que não são poucos, tanto os papéis quanto a desordem em que eles estão inseridos) deparei-me (confesso isto com a maior naturalidade do mundo, e não discuto o mérito disto) com a extrema necessidade de pensar e de sentir o pensar em parar de sentir. Deparei-me com aquele sentimento suprareal que, às vezes, nos vêem sob forma de idéia e nos martela a alma a ponto de esmiuçar o espírito até que este, sem forças, entrega-se ao ato inspirador e leva o homem a entregar-se também à inadmissível tarefa de arriscar-se.

Não se há de negar que o homem, com todas as implicações de inferências de sua vivência absolutamente humana tende, em sua primeira tarefa criativa, a refletir para a obra a humanização de sua vivência, ou seja, procura de todas as maneiras, mesmo que de forma maneirista, levar para a obra o seu reconhecimento humano.

Sei que não é hora de discutir estas afirmações; o momento é de compreensão. E muito embora esta compreensão seja menos conclusiva, a assertividade do homem deve levá-lo a aceitar suas próprias motivações, ou, as motivações que o motiva a viver e criar deve leválo a assertividade da vida. Deve levá-lo a associar-se à vida e esta à sua obra. Isto adquire uma capital importância tanto na vida do homem quanto nas descobertas que ele chega (quer de forma intrínseca, quer de forma extrínseca).

Este foi o grande mistério que me envolveu no ato criatório de “O homem e o rio”. Mas logo vi, que em toda a minha vida, e, do mesmo modo, em toda a minha criação poética, não havia ambivalência alguma entre uma e outra. Tudo era nítido, visível e transparente. Pois, como diz Pessoa: “o poeta superior diz o que efetivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir”. O próprio Pessoa arremata: “Nada disto tem de ver com a sinceridade”.

Diante disto, pus-me a traçar os primeiros versos do que agora é “O homem e o rio”. Um livro que fala, naturalmente, de homem e de rio. E confesso que ele (o livro) não me forçou a qualquer ambiguidade, a qualquer pano de fundo que me caísse como vestes necessárias. Apenas induziu-me a falar destas duas naturezas como se uma só fossem. E digo isto (por mais estranho que possa parecer) com toda a inteireza de coração.

Portanto, toda a minha luta diária pela expressividade poética de meus escritos, pela simbologia das evidências dos objetos descritos, pelo aviltamento instintivo de minha alma, levou-me a pensar e a sentir; só não sei, até agora, em qual classificação de poeta devo inserir-me: se inferior, médio ou superior.

Quando imaginamos compor um livro somos, no exato da palavra, os criadores. Detemos o sacro direito sobre a cria. Contudo, quando nos deparamos com algumas páginas já prontas, o livro se insurge, cria vontade própria, tem “pitis”,“rompantes” e, por fim, liberta-se dos grilhões da cadeia criativa e do próprio criador e passa a andar com as próprias pernas, sem necessidades de direcionamentos ou indicações. E assim vai até que ele (o livro) usando do próprio livre-arbítrio que lhe é peculiar, dita ao criador o momento de parar, de seguir uma outra estrada. E, muito embora isto seja (para o criador) um martírio, para o livro é a mais expressiva forma de libertação.

Vale a pena dizer que, o processo criativo de “O homem e o rio” não tem um fecho decisório. Ainda está por ser findo. Desta forma conclui-se que deste livro nascerá um outro (melhor ou infinitamente pior ainda não o sei).

O primeiro passo para se compreender “O homem e o rio” é compreender os amarres da vida, é aceitar, necessariamente, todo o infortúnio de se querer, no mínimo, essencial à própria vida.

É certo, caríssimo leitor, que não busquei, nem ao menos coloquei explícito neste livro, o comportamento decorrente desta união, deste convívio, desta compreensão, que, ao mesmo tempo é humana e representativa, de homem e de rio. Dois seres, inanimados ou não, isto pouco importa, o que faz a diferença, o que dita a verdade norteada, a ambivalência sentida, é a sublimidade implícita na idéia de dois seres, ligados intrinsecamente por um desejo, um afã, uma necessidade extrema de se fazerem conhecidos. E este comportamento (dúbio ou não, também isto pouco importa ante a grandeza dos acontecimentos) é o que possibilita o nascer da poesia, é o que motiva a qualquer poeta, a qualquer escritor a valorizar a abstração humana em toda a sua plenitude.

Assim nasceu “O homem e o rio”. Não para romper ou desassociar com o estado de espírito do criador, mas, sobretudo para afirmar em seu arcabouço formal e final o tom representativo da própria poesia que o contém.

O autor

Um olhar sobre O Homem e o Rio

Comentar uma obra literária não é tarefa das mais simples, tanto mais quando se trata de uma obra, cujo autor – verdadeiro artesão das palavras – escreve em versos com um estilo todo particular, como é o caso de Alufá Licutã Oxorongá. Para realizar essa tarefa (o comentário) deveria ser eu ou um grande entendedor da arte literária ou ser por demais ousado. Acredito que não sou nem este primeiro, nem este segundo. Então? Então, proponho-me a comentá-la por ser admirador da poesia de Alufá Licutã Oxorongá. Apontarei as marcas de estilo e de construção do fazer poético presentes em O Homem e o Rio, marcas que faz deste livro uma grande obra. Estarei tecendo comentários também sobre as deixas existentes na produção poética, ou seja, apontando as costuras do artesanato, pois ele não é só perfeição uma vez que é artesanato, e artesanato se faz à mão.

O livro O Homem e o Rio apresenta-se composto de um único poema, o que torna sua leitura mais delicada, pois, para termos o entendimento do poema, devemos ler todo o livro; para o leitor de “pouco entusiasmo” é fácil se perder na leitura e/ou dela desistir. O eu lírico, dono das emoções, ora se projeta por vida própria manifestando suas emoções, ora é apresentado por um outro eu onisciente e onipresente, como se fosse um narrador. Observe que na primeira estrofe do poema, já temos um alguém apresentando a situação:

“Por entre fechado arvoredo, em uma abstração de segredo,

um homem contempla o rio.”

(…)

Na segunda estrofe lemos: “E quando as margens costura os fios d’água em dúbia tecedura, o homem, em vigor, eleva um grito:”

Esta é a voz de um eu observador (se é que posso denominá-lo assim); e em seguida o eu lírico, dono das emoções irrompe:

“Ó Deus, se Tu a todos abençoa,

dá-me, que seja uma única canoa,”

(…)

Assim o poema vai sendo tecido por duas vozes. Outras obras de Alufá Licutã Oxorongá é construída sob este mesmo engenho: um único poema e duas vozes – a voz daquele que apresenta a situação e a voz daquele outro que vive as emoções. Esta construção poética é vista apenas em obras do gênero épico, como é o caso de Os Lusíadas, de Camões, e dos autores indianistas brasileiros, a destacar o belo poema I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. Na literatura contemporânea, não temos notícia de outro poeta que escreva desta mesma forma. Posso dizer então que este é um estilo particular do autor de O Homem e o Rio.

Alufá Licutã Oxorongá cultua a forma, dando a seus poemas rima e métrica; esta obra não é regida pela métrica, mas há uma tentativa de deixar os versos quase que uniformes, proporcionando-nos uma boa leitura. As estrofes de seis versos, o que seriam sextilhas perfeitas sem nada deixar a desejar caso fossem metrificadas – o que não é uma exigência no poema contemporâneo – são melodicamente marcadas pela rima, como exige os cânones da sextilha: AABCCB, ou seja, rimam entre si o primeiro com o segundo versos, o terceiro com o sexto e o quarto verso com o quinto. No que diz respeito à rima, a costura deixa a desejar somente na escolha das palavras, como os vocábulos de mesma classe gramatical. O uso de verbos no infinitivo, por exemplo, deixa a rima meio

‘cansada’:

“A orquestração da vida/porvir, incita Jupiá a desistir”

(…)

Há também a inversão dos termos da oração; em

“Mas tu podes esta história mudar

Basta um gesto, uma graça, um olhar”

O verbo mudar foi para depois do complemento esta história. Não há nada errado nisto, pois até os poetas clássicos já se utilizavam desse recurso (a inversão da ordem) para a criação da rima; contudo, rima deste tipo parece forçada. Também está muito presente nos versos de O Homem e o Rio o adjetivo, quase sempre antes do substantivo, o que é uma marca do autor Alufá-Licutã em seus poemas; ele está sempre antepondo o adjetivo ao substantivo; no entanto, quando este efeito proporciona a rima, causa aquela mesma idéia de coisa forçada.

O vocabulário usado na presente, como em outras obras deste autor, é digno de observação. Sempre muito rico de palavras, Alufá-Licutã busca do mais recôndito da gramática vocábulos como halo argêneo, anátemas, ergástulo, feetérea para compor seus versos; isto é marca positiva, pois um vocabulário bem trabalhado (e não de difícil entendimento para o leitor) enaltece autor e obra.

Também transpõe para o papel palavras que parecem criadas por ele, como parança, andança, em meio outras tantas do vocabulário simples e popular, o que é de total aceitação, pois a arte não se prende a cânones ou preconceitos, mas ultrapassa limites.

A construção do paradoxo homem x rio formou um jogo de idéias, onde hora se vê duas grandezas diferentes que se comunicam: de um lado o homem e o infortúnio da vida, do outro lado, o rio e o rebojar de suas águas; ora, vê-se apenas o homem, sendo o rio uma metáfora de vida. É uma malha bem tecida, que foi antes de tudo, cuidadosamente arquitetada e construída pelo poeta, seguindo um único tema. A presença do pai (Jubal) e da mulher amada (Alba Juçara) no poema é mais um detalhe que merece atenção na construção da trama: Jupiá refletia sobre a vida, logo iria fazer reflexões sobre pai e/ou mãe e mulher que amara, pessoas tão importantes na vida de um homem. Em todo esse engendramento, o que parece não soar muito bem é a presença do pai Julemá e do filho Jupiá figurarem na mesma canoa, no final do poema: este primeiro já havia morrido e o segundo se despedia da vida (ou acabara de morrer), o que seriam então fantasmas. São 180 estrofes e uma carga lírica de valor expressivo, como o contido nestes versos:

“Vi toda a vida vencida quando vivenciei a partida

de papai e de Alba Juçara.”

São versos com poder de reboar no eu de qualquer leitor, a menos que este leitor nunca soube o que é perder. O Homem e o Rio é um grande livro.

Cícero Ferreira Silva

 

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