Promoção!

O LOBO DA ESTEPE-Hermann Hesse

R$12,00 R$11,00

Categorias ,

Descrição

APRESENTAÇÃO

 

ESTE LIVRO contém as anotações que nos ficaram daquele a quem chamávamos, para usar uma expressão de que ele próprio usualmente se valia, o Lobo da Estepe. Seria ocioso indagar se este manuscrito necessita ou não de um prefácio; seja como for, de minha parte julgo imperioso acrescentar, às do Lobo da Estepe, algumas páginas em que procurarei plasmar as recordações que me ficaram de sua pessoa. Bem pouco é o que sei a seu respeito, sendo-me particularmente desconhecidos o seu passado e a sua origem: conservo, entretanto, de sua personalidade uma forte impressão e — cumpre-me declará-lo — bastante simpática, apesar de tudo.

 

O Lobo da Estepe era um homem de cerca de 50 anos que, certa vez, faz alguns anos, apareceu em casa de minha tia à procura de um quarto mobiliado para alugar. Interessou-se por um compartimento no andar superior, bem como por um dormitório contíguo ao mesmo. Voltou dias depois, trazendo consigo duas malas e uma grande caixa com livros, e morou conosco durante cerca de nove ou dez meses. Vivia muito sossegado e para si. Não fora a proximidade de nossos dormitórios nos proporcionar ocasionais encontros na escada e no corredor, e não nos teríamos conhecido, pois o homem era de fato insociável. E insociável a tal ponto que assim, estou para dizer, eu jamais observara em quem quer que fosse. Era realmente um Lobo da Estepe, conforme ele próprio, às vezes, costumava chamar-se: um ser estranho, selvagem e, ao mesmo tempo, tímido, muito tímido mesmo, pertencente a um mundo bem diverso do meu. Se bem que antes, graças aos nossos freqüentes encontros, já eu lobrigasse algum conhecimento sobre sua maneira de ser, foi só após inferi-lo dos escritos aqui deixados que vim a saber do profundo isolamento em que ele mergulhara, seguindo uma tendência natural e fatalística, que o levava a considerar conscientemente tal isolamento como uma imposição de seu Destino. Creio mesmo que o retrato que dele formei em função de seus escritos seja, na essência, bem semelhante àqueloutro (embora mais difuso e sem precisão de detalhes) que me ficou de nosso trato pessoal. Por casualidade eu me encontrava presente no momento em que o Lobo da Estepe entrou pela primeira vez em casa de minha tia e com esta contratou o aluguel do apartamento. Chegou exatamente à hora do almoço; os pratos ainda estavam sobre a mesa e eu dispunha de algum tempo livre antes de ter de regressar ao escritório. Não posso esquecer a estranha impressão que me causou nesse primeiro encontro. Fez soar a campainha e avançou pela porta de vidro do vestíbulo, em cuja semi-escuridão minha tia foi perguntar-lhe o que desejava. Mas, antes de dar uma resposta ou dizer o nome, ele, o Lobo da Estepe, ergueu a cabeça afilada e de cabelos curtos, olfateou avidamente o ar, exclamando: “Hum! Que cheiro bom aqui!” Riu em seguida, e minha boa tia riu-se também.

mas eu achei cômica aquela forma de apresentação, sentindo-me algo indisposto contra ele.

— Vim ver o quarto que a senhora tem para alugar —  Foi só quando subimos os três pela escada ao andar superior, que pude observá-lo com atenção: não era muito alto, mas tinha o andar e a postura de cabeça das pessoas espigadas; vestia um sobretudo de inverno, de talhe moderno e cômodo, e no demais estava decentemente vestido, embora com certo desalinho; o rosto bem barbeado e os cabelos curtos, onde se viam aqui e ali manchas grisalhas. A princípio, não me agradou nada o seu modo de andar; tinha algo de pesado e inseguro que não se harmonizava com o perfil agudo e enérgico nem com o tom e a índole de sua conversação. Somente mais tarde é que eu soube estar enfermo e que o caminhar lhe resultava incômodo. Com um sorriso muito pessoal, que naquela ocasião também me pareceu desagradável, examinou a escada, as paredes, as janelas e os altos e velhos armários dos vãos: tudo ali parecia agradar-lhe e, ao mesmo tempo, dava a impressão de achar tudo ridículo. De um modo geral, deu-nos a idéia de alguém assim que tivesse chegado de um mundo estranho, talvez de países de além-mar, e encontrasse aqui tudo perfeitamente agradável, mas ao mesmo tempo um tanto cômico. Era, não se pode negar, cortês e até mesmo amável; aceitou logo e sem objeções a casa, o quarto, o preço do aluguel e do café da manhã, mas mesmo assim havia, pelo menos me pareceu, em torno daquele homem, uma atmosfera estranha de hostilidade e desagrado. Alugou a saleta e também o dormitório, procurou ficar a par de tudo que dizia respeito ao aquecimento, água, serviços e os hábitos da casa; ouviu tudo atentamente e com muita amabilidade, mostrando-se de acordo com tudo. Em seguida, ofereceu também um pagamento antecipado sobre o aluguel, embora me parecesse não estar de acordo com absolutamente nada daquilo. Parecia estar achando-se ridículo em suas atitudes e querer tudo levar na brincadeira, como se fosse algo de extraordinário e novo o alugar um quarto e conversar normalmente em alemão, estando, no íntimo, ocupado com outras coisas bem diversas daquelas. De certo modo esta foi minha impressão, que teria sido ainda pior se não a corrigissem e delineassem as expressões de seu rosto, pois foi sobretudo a face daquele homem o que nele me agradou desde o princípio. Apesar daquela impressão de estranheza, sua fisionomia me agradou. A expressão fisionômica era, de certa forma, peculiar e triste, mas ao mesmo tempo esperta, inteligente, fatigada e espiritual. Ocorre que, para dispor-me mais facilmente à reconciliação, havia em sua cortesia e amabilidade — embora parecessem obtidas mediante algum esforço — uma total ausência de orgulho; ao contrário mesmo, havia nelas algo de comovente, de quase suplicante, para o que só mais tarde encontrei explicação, mas que desde logo me predispôs a seu favor. Antes que terminasse a inspeção de ambos os compartimentos e de levar a cabo o trato, já o meu tempo de almoço se havia esgotado e eu devia regressar ao trabalho. Despedi-me e deixei-o com minha tia.

Avaliações

Não há avaliações ainda.

Seja o primeiro a avaliar “O LOBO DA ESTEPE-Hermann Hesse”

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *